domingo, 17 de agosto de 2008

A Promessa




Vinde. Vinde cá dizer-me
Que antigamente é que era bom!
Saudades do passado? Muito bem!
Saudosistas? Muito mal!

durindana

A casa do alfaiate ficava na rua principal, mesmo ao lado da igreja matriz e em frente da escola primária. Era um andar térreo, muito estreito, entalado entre dois prédios mais altos. Na fachada, uma pequena janela e uma porta com postigo deitavam para o passeio empedrado.
Entrava-se directamente na oficina onde o mestre atendia os clientes, enquanto as costureiras, sentadas em cadeiras muito baixas perto da janela, diligentemente iam caseando ou chuleando os fatos já quase prontos. De vez em quando davam uma furtiva espreitadela para a rua. Uma enorme mesa, onde a fazenda era talhada, ocupava a maior parte da sala. Ao fundo, uma cortina de cretone flo-rida escondia uma abertura que dava acesso à habitação propriamente dita.

Era ali que vivia o Henrique, com os pais e mais cinco irmãos. Os mais velhos, um rapaz e duas raparigas trabalhavam na oficina com o pai. Os outros andavam o dia inteiro na rua.
Naquela época o Henrique era nosso colega na escola. A Grande Guerra só terminaria em 25 de Abril de 1945. Os adultos, para esquecerem as senhas de racionamento e as bichas, entretinham-se a colar tirinhas de papel nos vidros das janelas por causa dos ataques aéreos e à noite os miúdos deliciavam-se arrepiados com o toque das sirenes lembrando que era imperioso apagar as luzes.

Mais de metade da nossa turma andava descalça. Só algum tempo depois, Sua Excelência decretou a proibição dos pés nus, que deu azo ao grande incremento, extraordinário incremento da alparcata. O Henrique ostentava o seu pé descalço com tanto à vontade, que a minoria até sentia vontade de mandar as suas belas botas de atanado para as urtigas. Mas não era só por isso que ele se impunha. No berlinde ou no pião era o maior. Quando, no verão, calhava ir roubar uvas, era o primeiro a lançar-se ao rio, e só lhe víamos os calcanhares a bater compassadamente na água levantando cachões de espuma. Ainda nós íamos a meio da viagem já ele do outro lado se sacudia. Fazia milagres com a trapeira, sendo, aliás, o detentor do recorde de toques sem a deixar cair no chão.

Mas onde ele fazia furor era na bilharda, não havendo ninguém que o conseguisse desalojar do centro da roda. Na sua mão o pau zunia certeiro enviando a bilharda a dezenas de metros de distância. Na escola não era, contudo, tão brilhante, e reprovou no exame da 3ª classe. Quando soube o resultado desatou num pranto que nos comoveu. Mais tarde, não tendo aparecido para as brincadeiras do costume, resolvemos ir visitá-lo a casa, para lhe dar algum alento.
Pela primeira vez passámos para além daquela cortina de cretone, e a mãe introduziu-nos num pequeno quarto sem janelas, mesmo ao fundo do corredor. Na penumbra, avistámos o Henrique sentado numa das três camas que constituíam o mobiliário. Com a cabeça entre as mãos chorava baixinho.

Procurámos animá-lo. Haveria outras oportunidades… que para a próxima vez iria conseguir… que um ano perdido não era assim tão importante… enfim, aquelas coisas que se dizem nestas ocasiões para equilibrar o desconsolo.
Em vez de acalmar desatou num grande choro, e titubeou:
- A minha mãe tinha-me prometido um ovo estrelado se eu ficasse bem no exame - e redobrando o pranto - agora já não como o ovo estrelado!

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