sábado, 23 de agosto de 2008

O Director Adjunto




A propósito de um editorial do Sr. Luís Delgado, em que se mostrava muito preocupado com a vinda de um palestiniano para Portugal, na sequência da ocupação da Igreja da Natividade. (Outubro de 2003)



O Sr. Director Adjunto anda com muito mau aspecto. O cenho carregado e as olheiras roxas, enormes, penduradas das pálpebras, juntamente com a sua extrema magreza, tornam-no irreconhecível. Muito diferente, sem dúvida, da sorridente fotografia que ladeia os seus extraordinários editoriais.
Há quem diga que tudo começou quando o jornalista Sr. António Rodrigues, que de Jenim enviava as suas crónicas para o DN, se insurgiu contra o facto de uma pessoa, mesmo sendo Director Adjunto e sem desenfiar as pernas de sob a sua secretária, sabia tanto do que se tinha passado naquela cidade. Não se sabe se o repórter pediu a demissão, mas disse-lhe com muita rudeza, que não podia tolerar que um chefe acreditasse mais na secreta israelita do que nele próprio, que correndo o risco de levar com um balázio, tinha os olhos em cima dos aconteci-mentos. Nesse dia já nem almoçou e à noite teve alguma dificuldade em adormecer. Ninguém gosta de ter conflitos com os seus subordinados, pelo que ficou realmente muito incomodado.

Ainda não tinha recuperado totalmente deste episódio quando soube que ia chegar a Lisboa um dos 13 palestinianos da Igreja da Natividade. Nem queria acreditar. Queria lá saber que o Ministro dos Negócios Estrangeiros dissesse que o homem não era nenhum cadastrado e nem sequer havia indícios de que tivesse cometido qualquer crime.

Era ou não verdade que numa linda e calma noite de luar, sem que nada o fizesse prever, a igreja fora invadida por aqueles 13 energúmenos que durante semanas mantiveram cativas centenas de pessoas que àquela hora participavam devotamente num acto litúrgico? Enquanto cá fora a vida decorria rotineiramente, lá dentro praticavam-se as maiores sevícias. Aquelas bestas chegaram mesmo ao ponto de partir um crucifixo com o intuito de fazer umas talas para um braço partido e urinaram no cálice sagrado, pasme-se.

Agora, Portugal inteiro ia ter que ficar de atalaia. Um desses monstros aprestava-se para provocar o caos num país tão sossegadinho como o nosso.
Annan Tanjeh pode estar sentado ao nosso lado no café ou no cinema, passar por nós na rua, pode até ser o condutor do autocarro 17, ou o técnico que vem reparar o telefone, ou quem vem contar a electricidade... Quando chegar o Inverno, muito cuidado com os carrinhos das castanhas assadas - podem estar armadilhados.

O Sr. Director Adjunto não dorme desde então. Corre para casa logo que se liberta dos compromissos diários, e tranca-se. Chapeou a porta da rua com aço e mandou montar uma daquelas fechaduras alemãs que custam uma dinheirama. Antes de se deitar, revista toda a casa, não se esquecendo de espreitar debaixo da cama e mesmo dentro dos armários da cozinha. Quem sabe se o vândalo não é anão? Dorme aos solavancos ao ritmo de pesadelos medonhos e nem o polícia que a Administração Interna destacou para a sua porta lhe traz alguma tranquilidade. Quem sabe ele não é o Alan Tanjeh?
Pobre Sr. Director Adjunto!

Sem comentários: