domingo, 31 de outubro de 2010

Toca o Hino!

A propósito de uma campanha publicitária da PT que em 2006 causou alguma indignação popular, levando a sua administração a substituir a “Portuguesa” pela popular composição “Bacalhau à Portuguesa”, de Quim Barreiros.

Caramba, contra os canhões marchar, marchar!
Agora só falta fazerem cuequinhas com as cores da bandeira nacional e a respectiva esfera armilar bem centrada… atrás.
Porque, se como diz o Sr. Director de Comunicação da PT, o Hino Nacional foi usado na campanha da PT para passar uma mensagem de orgulho em Portugal eu fico sem saber onde se encontra o enorme sucesso que o mesmo senhor garante.
Aumentou o orgulho nacional?
Subiram as vendas da PT?
É fácil verificar se as notas de música se transformaram em notas moeda, mas quanto ao orgulhozinho… hummm… tenho as minhas dúvidas.
Aquilo que eu sinto é uma enorme irritação pela constante repetição (matraqueação seria o termo mais correcto se existisse) que me leva a mudar de canal automaticamente para não ter que me pôr em sentido.
Acho mal? Acho bem? Nem eu sei…!
O meu medo é que no futuro, em qualquer acto público, quando a banda atacar a “Portuguesa”, em vez de arrepios de comoção, sintamos uma indiferença maior do que ouvir o tiroliro.
Mas se calhar isto são birras de velho!
6/JAN/2006

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Desisto!

Por hábito costumo almoçar à uma hora da tarde e aproveito para ouvir, mais do que ver, o telejornal, pois gosto de estar informado do que se passa lá fora. Fora dos meus muros, como está bem de ver.
Todos os nossos canais, antes e depois do período informativo, dedicam-se ao debique pormenorizado e profundo dos acontecimentos mais funestos que sempre existem em qualquer país, por mais pequeno que seja.
Porquê?
Porque o mercado continua a impor a sua regra básica da oferta e da procura e logo, se há mais clientes para o sangue que mancha o passeio, um assalto à mão armada, um choque em cadeia na auto-estrada (quantos mais mortos, melhor), ou mesmo um pequeno desentendimento familiar, jorra mais “cacau” dos anunciantes para alimentar todos os agentes da paranóia informativa.
Claro que os telejornais não estão imunes a esta onda, todavia ainda conseguimos alguma informação sobre a situação no mundo e particularmente no nosso país.
Há poucos anos, a pivot de um telejornal introduziu no noticiário uma reportagem sobre as urgências no hospital de S. José. Quando depois da apresentação, feita pelo repórter no exterior, o médico responsável se preparava para nos transmitir a situação naqueles serviços, a senhora no estúdio resolveu interromper para introduzir uma mãe que reduziu o seu problema a esta declaração
- O meu filho bateu-me e até me chamou vaca e puta!

Não é pois de estranhar que sentando-me hoje á mesa alguns minutos antes do noticiário das 13 horas e quando levava á boca uma bucha barrada com paté de sardinha, tenha encarado com alguma indiferença a conversa da apresentadora do programa sobre um homem que foi morto por ter violado um burro. O dono do dito lavou deste modo a sua honra.
Do burro? Não, a sua própria.
E quando julgava que ia começar o telejornal ainda ouvi a incrível estória dum homem que matou o cunhado por causa de biscoitos.

Tem piada, só agora reparo na relação entre as duas notícias.
Então… bis-coito...!
À hora do almoço.
Esta gente é doida varrida!
A.M.

Nota: A título meramente informativo acrescento que biscoito não tem nada a ver com "aquilo" duas vezes. Biscoito tem origem latina: biscoctu - cozido duas vezes.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Correlações temporais

Alguns amigos sabem da necessidade que sinto em regressar à gleba original, pesquisar nas ruas, na beira do rio ou no pinhal sobranceiro, algum vestígio que me re constitua e alente para singrar mais algumas milhas no mar do quotidiano.
Parto sem planos, sem regras, sem mapas. O que for soará!
Dois ou três dias depois, regresso com o casco restaurado e as velas remendadas.
Um dia, ao passar em frente da casa onde nasci e vivi até aos 17 anos, senti uma irreprimível vontade de revê-la por dentro - o meu quarto, a estante com livros, a lareira, a escada que dava para o quintal, o alpendre, o misterioso sótão.
Mal dei por mim batia à porta e pedia desculpa à simpática senhora que me atendeu por não ter conseguido reprimir o impulso de revisitar a casa donde saíra há mais de 50 anos.
Convidou-me a entrar e ali estava eu a mirar e a medir espaços, revolvendo a arca das recordações.
O meu amplo quarto de criança encolheu repentinamente e as portadas das janelas já não me pareciam conventuais. O largo e comprido corredor que atravessava toda a casa e desaguava na cozinha através de uma misteriosa meia-porta já não era a antiga pista de corridas.
Na varanda das traseiras estava um gato dormitando ao sol, mas não era o Cuco, e o cão preso por uma corrente ao fundo das escadas não era o Kiss.
Dali, olhei todo o quintal. Era comprido, feito em socalcos e percorrido lateralmente por uma passagem com degraus que ia até lá acima à última courela. Em cada uma delas havia um tanque do lado esquerdo dos quais saiam caleiras que transportavam a água ao longo de cada plano de terreno.
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Naquele dia o avô andava a regar os pés de laranjeira plantados há poucas semanas na última courela. Eu olhava com admiração a facilidade com que transportava os grandes baldes de água que retirava dos tanques. Por vezes parava para descansar um pouco e procurava-me com a vista para se certificar que não havia maroteira.
- Chega aqui, anda cá ver um bicho!
Aproximei-me desconfiado.
E lá estava a fera, negra e amarela, viscosa como uma lesma.
- É uma saramantiga – ensinou-me o avô.
- Vou contar à mãe que vi uma saramantiga – disse eu excitadíssimo – partindo numa correria direito a casa para partilhar o grande acontecimento.
Para não me esquecer do nome, pelo caminho, ia repetindo, saramantiga… saramantiga.
A meio do percurso já dizia, saramanteiga… saramanteiga.
Quando esbaforido cheguei ao pé de minha mãe gritei entusiasmado:
- Mãe, ó mãe, eu vi uma manteigueira.
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Realmente o quintal não era assim tão grande.
Para uma criança como eu, tinha precisamente o comprimento que vai de uma saramantiga a uma manteigueira.